“Os que se salvam” (Lc 13,23)
Um antigo mestre dizia: “sou cristão para ir para o céu? Não. Para escapar do inferno? Não. Então, para quê? Para seguir Jesus Cristo. E se Deus não existir? Pior para o existir. Agora, se Jesus me largar, tô perdido…!”
A gente não sabe muito nem de céu, nem de inferno. O céu e o inferno de que Jesus fala é muito mais céu e mais inferno do que representamos e imaginamos. Só sabe o que é o inferno que Jesus fala, quem o vislumbrou, por alguns instantes, e o renegou. Como também só sabe o que é o céu, aquele que O segue: Quem vende tudo que tem, toma sua cruz e põe o pé nas marcas que Ele deixou.
Pode ser que alguém esteja lendo isso e pensando: Como deixar tudo se tenho que criar meus filhos, ajudar meus pais e os pobres…? Pelo Evangelho, não teria problema nenhum alguém ser dono do mundo inteiro. Desde que o administrasse como diz Jesus: para alimentar a todos os que estão em casa (Mt 24). Ou seja, administrasse em vista do bem comum. Sem excluir ninguém.
E se o evangelho tiver também primeiros acenos, “colheres de chá” de Jesus, iscas para nos fisgar? Como para nos dizer: não é tão difícil começar. E se começar, vai sendo envolvido, sem precisar grandíssimo esforço. Quase igual ao leitinho que se dá para criança iniciar-se na arte de ingerir e digerir alimentos?
São as primeiras seduções de Deus para conosco. Começa com pouco…”procurai o último lugar…”. Exigência leva, mas já “risca o fósforo”. Já dá um
gostinho do Evangelho. Caminho que é longo e fascinante! Como aprender a ler. A cartilha começa com palavras curtas: “Vovô viu a uva. Viva o vovô!”. Quer dizer, começa a sentir o gosto da leitura. Começa a sentir a doçura do evangelho para depois aguentar o tranco: “Amai os vossos inimigos… abençoai os que vos perseguem… se baterem numa face, oferece também a outra… Quem não deixar tudo por mim não é digno de mim… Quem não deixar pai, mãe, irmãos, irmãs não pode ser meu discípulo”. E, então, fascinar-se intensamente com Ele.
Como São Francisco de Assis e todos os Santos. É tudo arte, pedagogia de Jesus. Se começasse já com os “trancos”, acho que a gente fugiria correndo. Luiz. Fernando Veríssimo, grande escritor, recém-falecido, no conto ABC, diz: “…se quando peguei a cartilha de alfabetização pela primeira vez, soubesse que essa língua continha a palavra ‘esdrúxula’ ou, então, ‘ceborréia’, teria a fechado, ido jogar bola e empinar pipa pro resto da vida!”.
O que permanece já desde o primeiro passo é que gente não pode se largar descomprometidamente, como se tudo fosse automático. A porta larga vai se estreitando já desde o primeiro passo. Um Bispo, numa reunião, disse que a pessoa começa a ser católica quando começa a pagar o dízimo. Não gostei do que ouvi. Quem não tem fé já pensa que a Igreja é uma armação para tirar dinheiro do povo e esse vem dizer exatamente isso…!?
Depois pensei melhor e concluí: Tinha toda razão. Enquanto a porta não começa a ficar estreita, enquanto a gente não investe nada na coisa, ela também não significa nada pra gente. Aí vai apertando até chegar ao ‘vai, vende tudo o que tens, vem e segue-me’. Quer dizer, até sobrar o que somos: nossa compreensão e nosso querer. O humano é isso: compreender e querer.
Centro esta minha página na liturgia do 21º domingo do ano C. A Antífona do dia é o Sl 85, que diz ‘…salvai vosso servo que confia em vós’. A Coleta diz: ‘amar o que ordenais e esperar o que prometeis…’.
A promessa está na primeira leitura (Is 66): ‘…virei para reunir todos os povos e línguas; eles virão e verão a minha glória’. O Sl 16 diz ‘Contemplarei justificado, a vossa face; e ficarei saciado quando se manifestar vossa glória’.
E o que ordenais? A segunda leitura e o Evangelho: “Considerai tudo como pedagogia do Pai do Céu para contigo: “Qual pai que não educa seu filho, que não castiga?” Educar é fazer vir à tona o melhor da pessoa. “Ex” e “ducere”. Ducere, é conduzir. “Ex” é para fora. Castigar é tornar casto. Casto é o vidro sem bafejo, que deixa a luz passar integralmente.
Então, são poucos os que se salvam? Não sei. A bola está rolando. Cada um é livre. Quantos principiarão hoje o caminho do Evangelho? Eis liberdade. Todos podem.